
SSP/SE participa do VI Encontro Técnico do Programa Nacional de Qualidade de Vida para Profissionais de Segurança Pública, em Brasília
6 de novembro de 2026Quando desci do carro e me aproximei do portão de entrada da residência do tenente José Pereira Lima, percebi que estava prestes a lidar com uma experiência repleta de emoção, curiosidade, alegria e muita história. Não demorou muito para que o oficial centenário, um senhor sorridente, de olhos claros e face serena, recitasse as boas-vindas e me acolhesse gentilmente em seu lar. As vestes, impecavelmente alinhadas, transmitiam, mais do que simples estética, a disciplina dos tempos em que a farda da Polícia Militar era mantida como a sua segunda pele. Pouco antes de iniciarmos a nossa conversa, a senhora Socorro, filha mais velha do tenente, veio lá de dentro, com uma pequena bandeja, forrada com uma toalhinha branca e dois copos de água de coco bem gelada. Em boa hora, a gentileza amenizava a sede de uma manhã quente de verão, mas, principalmente, dava continuidade a uma dieta saudável e cuidadosa, essencial na rotina do tenente Pereira com seus 102 anos de idade.

Entre um gole e outro, eu observava atento todas aquelas fotos antigas anexadas à parede da sala. Ao perceber o meu interesse, o tenente Pereira fez questão de nomear cuidadosamente todos os personagens ali expostos. Imediatamente, pensei – que memória extraordinária! Por certo, essa capacidade de armazenar informações foi estimulada, em grande parte, pelo seu estilo de vida ativo. Afinal, como havia me relatado pouco antes, o tenente centenário preenche grande parte do seu tempo com as leituras, os bate-papos, as aulas de pilates e os divertidos jogos de dama em companhia do seu vizinho, o coronel reformado, Raimundo José Pinto.
“Na época em que me casei, ele ainda tinha nove anos. Sempre fomos próximos. Quando ele entrou na Polícia Militar, ficamos mais próximos ainda. No dia em que completei cinquenta anos de casado, convidei ele para a minha festa”, lembrou o velho amigo.
O tenente Pereira começava a relatar as suas experiências pessoais e profissionais, e eu já estava convencido de que a interação entre os mais jovens e os mais velhos não só enriquece a experiência de vida de ambos, mas também pode ser um fator determinante para o bem-estar e a longevidade.
Origem humilde
Antes da farda, da continência, houve o menino correndo descalço pelas ruas de terra batida do Povoado Sucupira, Município de Nossa Senhora das Dores. Sergipe ainda despertava lentamente para o século XX, quando, no dia 17 de fevereiro de 1924, iluminado pelas luzes das antigas lamparinas do sítio formado por casas separadas, Pereira veio ao mundo. Os primeiros sons, pronunciados pela fala tipicamente nordestina do seu pai, o senhor Manuel Pereira, descendente de português, com ênfase nos “és” e “ós”, foram rapidamente assimilados pelo menino. A cada amanhecer, na lida simples da roça, revelava-se no jovem Pereira a ancestralidade da mãe, a senhora Elvina, uma morena de cabelos soltos e origem indígena, que lhe moldava o caráter como o rio molda a pedra.
A infância de pés descalços e brincadeiras ditava o ritmo daquele que o tempo transformaria em referência. “Eu caçava, pescava, fazia as coisas que os outros meninos faziam. Eu tinha um grupinho de três pessoas que a gente saía juntos. Os três tinham que pensar a mesma coisa. Aquelas coisas de criança como armar arapuca para pegar pássaros e por aí vai”, comentou.
Exercitando a sua boa memória, o tenente Pereira explicou que permaneceu na comunidade do Sucupira até completar três anos. Logo depois, o seu pai foi chamado para trabalhar como feitor na Usina Gonçalo das Pedras, em Maruim, para onde mudou-se com toda a família. Apesar do longo tempo passado, o tenente ainda lembra as diversas fases vivenciadas na cidade de Maruim, onde passou quase toda a sua infância. Ao fechar os olhos marejados pela saudade, ele voltou aos seus oito anos de idade, época em que ajudava as mulheres que trabalhavam nas plantações de cana-de-açúcar. O som do “tchac”, firme, preciso e quase estalado, produzido pelo impacto do aço do facão com o talo da cana, segue ecoando nos ouvidos de Pereira. O trabalho precoce fazia parte da juventude do tenente que, em continuidade às claras memórias dos momentos do passado, recordou que aos 14 anos trabalhava carregando pedras de calcário, utilizadas para serem transformadas em cal. Diante de um tempo, o qual, infelizmente, não havia distinção entre os trabalhos desempenhados por crianças e por adultos, o jovem Pereira estudou até a 4ª série no Grupo Escolar Padre Dantas, também em Maruim. Ainda assim, pereira é enfático ao afirmar que nada tem a reclamar da vida.
Carreira militar
Quando completou 21 anos, em 1946, Pereira decidiu se alistar no Exército Brasileiro para realizar um sonho que mantinha desde os tempos de criança. Curiosamente, de acordo com as regras daquela época, o exército dispensava do processo de alistamento as cidades que apresentavam excesso de contingente. Como o município de Maruim, onde o jovem Pereira residia, fazia parte dessa lista, o ingresso nas Forças Armadas parecia cada vez mais distante. Apesar da dificuldade, Pereira estava disposto a fazer valer a frase de autor desconhecido: “A persistência é a chave para transformar sonhos em realidade”.
Contagiado pelo fervor de servir à nação, o entusiasmado Pereira atravessou o portão do quartel com os olhos acesos de esperança. No entanto, a resposta que ouviu do sargento foi dura e seca:
—Está dispensado!
— Sargento, faz favor, eu queria tanto servir o Exército, clamou Pereira.
— Mas não pode, aqui é dispensado, respondeu o sargento
— Sargento, fale com o capitão e diga que eu sou doido para servir, insistiu Pereira.
Diante da persistência de Pereira, o sargento falou com o capitão, um militar de quase dois metros de altura, que veio cá e disse assim:
— Vem cá, você quer servir mesmo? Enquanto outros pedem para não servir, você quer servir? Vou incluir você!’
Obstinado, Pereira serviu o exército por um ano e vinte e seis dias como padioleiro, função desempenhada pelo militar encarregado de levar os doentes para os hospitais. Após o período de serviço obrigatório, Pereira foi desligado e voltou para Maruim, onde deu continuidade aos trabalhos na roça.
Ingresso na Polícia Militar
A admiração pelo universo militar sempre fez parte da vida do jovem Pereira. Ainda assim, suas motivações sempre foram construídas dentro de um cenário no qual as escolhas normalmente baseavam-se na busca por uma vida melhor. Afinal, o ano era 195O, período em que as cidades nordestinas, inclusive Maruim, apresentavam um cenário de baixa industrialização e agricultura pouco diversificada. Diante dessa realidade, grande parte da população migrava para outras regiões na busca por uma vida melhor. No entanto, ao invés de tomar tal atitude, Pereira pensou com equilíbrio e sensatez, assim como aprendeu com os seus pais.
— Bem! Um soldado da Polícia Militar ganha quinhentos cruzeiros por mês. Aqui na roça a gente recebe quatrocentos. Vejamos! como aqui eu ganho quatrocentos para comprar tudo, e lá, eu ganho quinhentos, têm roupas e têm sapatos., vou pra lá, calculou Pereira.

Assim que concluiu o serviço militar obrigatório e completou 25 anos, o jovem Pereira sentia-se pronto para ingressar na Polícia Militar. Porém, para transformar o seu desejo em realidade, ele precisava se enquadrar às normas técnicas e burocráticas exigidas pela Corporação. Naquela época, por exemplo, para vestir a farda e fazer parte da PM, exigia-se mais do que coragem e disposição. Era preciso apresentar um atestado de solteiro, documento que comprovava não haver laços matrimoniais que dividissem o compromisso do postulante. Existia a compreensão de que o serviço exigia entrega quase absoluta. Prontidão sem hora marcada, mudanças repentinas e riscos constantes eram situações rotineiras na vida militar, mas nada disso era empecilho para Pereira, que providenciou o documento e foi falar com o comandante responsável pela análise das indicações. Sim, indicação! No passado, o ingresso no serviço público, inclusive na Polícia Militar, era feito por meio de indicação.
— Eu preparei a papelada e fui até o Palácio do Governo para entregar ao comandante da Polícia Militar. Logo na entrada, me deparei com o soldado corneteiro que perguntou: ‘
— O que é que você quer falar com o comandante?
— Eu respondi com outra pergunta. Você é o comandante? Eu vim falar com o comandante.
Após convencer o corneteiro, o pretendente a uma vaga na Polícia Militar subiu até a sala do comandante e prosseguiu com o seu objetivo.
— Quando cheguei lá, o general olhou para mim e perguntou:
— Trouxe um bilhete do chefe político de sua cidade?
— Não, senhor! Eu não sou político! Eu vim pedir ao senhor para ser incorporado na Polícia Militar, explicou Pereira
Como resultado de tanto afinco, o general autorizou o ingresso de Pereira na Corporação.
De soldado aplicado a sargento respeitado
Incorporado às fileiras da Polícia Militar de Sergipe em 29 de julho de 1950, o jovem recruta logo conquistou a admiração entre superiores e companheiros de farda. Cerca de um ano após a sua admissão, em abril de 1951, o soldado Pereira demonstrou um importante atributo adquirido durante sua curta passagem no Exército e, rapidamente, foi designado para atuar no setor de material bélico. Nesse mesmo período, foram abertas 10 vagas para a graduação de cabo especialista em material bélico, sendo que uma delas foi conquistada por Pereira.

— Fizeram um estande de tiro e tinha um sargento que era o instrutor.
— Você sabe atirar? perguntou o graduado ao soldado Pereira.
— Sou especialista nisso. Aprendi no exército a atirar com revólver em linha de costura, afirmou o olho de águia.
Durante a instrução, aproximadamente dez militares participavam dos exercícios no estande de tiro, mas somente o soldado Pereira e o sargento instrutor conseguiram acertar o alvo. Com certeza, o conhecimento técnico e a precisão com as armas foram essenciais para que o soldado Pereira fosse promovido à graduação de cabo.
A promoção conquistada rapidamente não foi um mero acaso na sua trajetória profissional. Pereira sempre gostou de observar e aprender com os mais experientes. Em um determinado episódio, ele solicitou ao subtenente, que atuava na extinta função de furriel (aquele que escrevia a folha de pagamento dos militares da unidade em uma folha de borrão para, posteriormente, passar a limpo e evitar erros) que lhe ensinasse tal atribuição. Ao perceber que o subtenente do setor estava com a idade muito avançada, o cabo Pereira não hesitou em perguntar:
— Posso pedir um negocinho ao senhor? Eu posso ser beneficiado, mas o senhor também vai.
— O quê? Questionou o subtenente.
— Me ensina a fazer a folha de borrão, perguntou Pereira.
Demonstrando um misto de surpresa e indignação com a petulância do subordinado, o velho subtenente respondeu:
— Rapaz! Você é cabo e já quer fazer o borrão?
Apesar da negativa inicial, o experiente subtenente já estava com a idade bastante avançada e começava a sentir dificuldade para exercer a função de furriel. É bom lembrar que naquela época, não existia a regra da compulsória, e vários militares optavam por continuar trabalhando, mesmo após os 75 anos.
Passados alguns meses, o subtenente, de passos lentos e visão embaçada, reavaliou a proposta. Ele convidou o cabo Pereira para ir até a sua residência durante o período da tarde, quando encerrava o expediente na Companhia, para começar a corrigir os borrões. Basicamente, tratava-se de páginas costuradas à mão com agulhas, contendo os nomes e os valores dos soldos pagos ao efetivo da unidade policial.
— Eu fui à casa do subtenente, onde fui recepcionado pela esposa dele, que me serviu um pouco de doce. Fiquei bastante satisfeito.
— Enquanto degustava aquela saborosa sobremesa, o subtenente resolveu me testar.
— Tem um gato (erro) no meu borrão que não consigo descobrir. Vê se você descobre.
Logo em seguida, o cabo Pereira, como ele mesmo descreveu, começou um tal de “soma daqui, diminui aqui, soma tudo para dar igual aqui”. No fim das contas, ele terminou descobrindo que o valor referente ao pagamento de um dos militares da unidade estava alterado em alguns centavos. Devido as suas habilidades com os cálculos, Pereira passou a fazer a folha de pagamento da Companhia, mesmo sendo uma tarefa geralmente atribuída aos sargentos e oficiais, acumulando com a função de armeiro.
Ainda que satisfeito, o cabo Pereira foi além, e não demorou muito para deixar de ouvir os constantes estampidos das munições no estande de tiro. A farda suja de pólvora daria lugar ao fardamento alinhado da Guarda do Palácio do Governo, onde passou a atuar após a promoção de terceiro sargento.
“Em novembro de 1952 eu já era sargento. Assim que fui promovido, me mandaram para trabalhar na Guarda do Palácio. Era uma repartição pública e havia a necessidade de prestar honras militares a um general que foi visitar o governador. Os outros não sabiam, mas eu ficava ao lado, e quando ele entrava, eu prestava continência. Quando saía eu também prestava continência. A minha postura foi primordial para o general ficar satisfeito”, explicou.
Em meados de 1954, o terceiro-sargento Pereira foi designado para o Município de Simão Dias, para onde seguiu estrada adentro com o mesmo passo firme de quem aprende, cedo, que a farda não veste apenas o corpo, mas também o destino. A mudança não lhe agradava. Havia no gesto de arrumar os pertences uma inconformação silenciosa e disciplinada.
“Em 1954 atiraram contra o sargento, comandante do destacamento da cidade de Simão Dias. Por causa disso, vieram pedir ao governador para enviar outro sargento para substituí-lo. Até então, eu ainda não havia destacado no interior do estado. Eu me lembro que o oficial de gabinete, na época, o aspirante Lenine Mendes, trouxe a informação de que o governador mandou escolher um dos sargentos da guarda do palácio para ir para Simão Dias. Ele então perguntou:
— Você que ir?
—Não! eu respondi.
— Perguntou a outro sargento, que também disse, não!
— Pouco tempo depois, o aspirante subiu e falou com o governador que disse.
— Volta lá, escolhe um solteiro e manda.
O sargento Pereira era o único solteiro e, por isso, foi o selecionado para destacar no município de Simão Dias.
Como a vida, generosa e imprevisível, costuma esconder bênçãos justamente nas curvas que menos desejamos fazer, foi em Simão Dias, entre novas rotinas, ruas de terra e o cumprimento respeitoso dos moradores, que o acaso lhe sorriu com delicadeza. No compasso simples da cidade, Pereira encontrou o olhar da jovem Crinaura Ramos.
O tempo transformou a paixão inicial em uma parceria sólida, capaz de fazer o sargento Pereira desistir, temporariamente, da primeira possibilidade do oficialato.
“Fui selecionado para fazer parte do Curso de Formação de Oficiais de 1954, a mesma turma do saudoso coronel Valdemar Gomes. Comprei os livros, comprei tudo para começar. No mesmo período, me mandaram para destacar em Simão Dias e conheci a minha esposa. Não tive outra alternativa, a não ser pedir desligamento do curso”.
Dona Crinaura, com quem conviveu por 68 anos, foi presença firme nas ausências impostas pela profissão. E mesmo quando a memória começou a falhar, devido ao Alzheimer, o amor permaneceu. Sua partida, há três anos, deixou saudade, mas a história de amor, resistente como a própria vocação que o guiara até ali, permanece.
Enquanto falava da família, Pereira levantou-se do sofá onde conversávamos e pegou um porta-retrato que estava em cima da mesa. No mesmo momento, o sorriso e olhar paterno do velho combatente contemplou a imagem que representava a maior de suas conquistas: três filhos bem encaminhados e honestos, cuja retidão é a herança mais valiosa que poderia deixar ao mundo.
“Eu construí uma família e cuidei da minha esposa e dos meus filhos. Aquele ali é pastor e palestrante internacional, e aquele outro é advogado”, descreveu, apontando para o retrato.
A família acompanhou Pereira sempre que o dever o chamava. Durante os trinta e cinco anos em que serviu à Polícia Militar, o sargento precisou mudar de município por diversas vezes. Mais precisamente, ele trabalhou em dez cidades sergipanas. Em uma de suas andanças, Pereira foi designado pelo comandante da Corporação, na época, um capitão do exército, para destacar e fazer inquéritos policiais no município de Campo do Brito, onde exerceu a função de delegado pela primeira vez.
“Todas as vezes que mudava o governador, trocava o destacamento todo. Mudava todo mundo. Eu vivia de uma cidade para outra. Aonde quer que eu fosse, eu trabalhava bem e me dava bem com todo mundo”.
Na verdade, nem todo mundo. Pereira observou que tinha uma boa relação com os juízes das comarcas, mas não possuía uma boa sintonia com a maioria dos promotores. Segundo ele, naquele tempo, alguns promotores eram estudantes de direito, ou tinham fortes laços políticos. Era comum a interferência deles nos inquéritos conduzidos pelos delegados da época, o que não era aceito por Pereira.
“Antigamente, não era obrigatória a presença do promotor durante os questionamentos às partes envolvidas no inquérito. Assim mesmo, alguns diziam que queriam estar presentes, mas eu afirmava que não queria promotor na delegacia. Não demorou para o general me recolher e me mandar para outra cidade. Assim foi a minha vida”, comentou.
Uma breve pausa
O salário baixo dos policiais militares e o custo de vida relativamente alto, especialmente influenciado pela seca no início da década de 50, contribuíram para que o sargento Pereira reavaliasse o seu futuro na Polícia Militar. Na tentativa de prover uma melhor condição financeira para a sua família, ele solicitou dispensa da Corporação em março de 1956, com o propósito de buscar outro meio de subsistência. No entanto, a vocação e o amor pela caserna foram mais fortes e Pereira retornou no mês de novembro do mesmo ano.
“Naquele tempo, não era que eu não gostava da polícia, é que eu ganhava pouco, explicou Pereira.
— Você vai sair? perguntou os amigos.
— Eu vou sair, mas volto logo, respondeu
Como havia prometido, Pereira não perdeu tempo e redigiu à mão o requerimento solicitando sua reincorporação. Diante da conduta integra e disciplinada do sargento, o comandante da época não hesitou em aprovar o pedido de retorno.
O militar lembra que quando a solicitação chegou à PM1, setor responsável pela homologação do documento, um certo tenente, o qual não lembra o nome, deixou claro que o período em que esteve afastado das funções não seria contabilizado na sua ficha.
De acordo com Pereira, o primeiro-tenente foi no finalzinho do documento e, com o próprio punho escreveu a frase: Sem contar o tempo que passou fora”.
— Eu fui lá e pedi para ele corrigir. Ele não corrigiu. Aí eu observei qual era o boletim. Assim que mudou o oficial da PM1, retornei lá e contei a situação.
— Vou concertar isso aí, prometeu o tenente responsável pelo trâmite do documento de reintegração de Pereira.
Subtenente
Dois anos após o seu retorno à Corporação, em 1956, o primeiro sargento Pereira exercia a função de delegado no município de Riachão do Dantas. É importante frisar que, na década de 50, em Sergipe, policiais militares ocupavam a função de delegados de polícia, principalmente devido a uma estrutura de segurança pública que ainda não contava com uma divisão clara e estruturada entre as carreiras civis e militares.
Ao relatar esse momento singular de sua trajetória profissional, Pereira lembra que, de todas as práticas inerentes ao cargo, o inquérito policial era a sua preferida.
“Eu fazia inquérito como ninguém. Os juízes adoravam os meus inquéritos. Eu produzia inquérito de tudo. O cara fazia lesão corporal, eu fazia o procedimento. Eu não era como muitos, que só faziam bater papo”.
Como dificilmente é traído pela memória, Pereira ainda lembra dos mínimos detalhes dos tempos em que conduzia os inquéritos.
“Naquela época, com o cara solto, os inquéritos tinham que ser enviados para o juiz com trinta dias. Depois de fazer o relatório, solicitava ao juiz que devolvesse para que eu pudesse ouvir as pessoas. Ele mesmo devolvia. Eu não mandava para o promotor fazer isso. Aí, os juízes acabavam dizendo que eu era bastante cuidadoso”, comentou Pereira.

A dedicação e a competência do primeiro-sargento também chamaram a atenção dos oficiais superiores, que indicaram Pereira para preencher uma vaga destinada à graduação de subtenente. A promoção era disputada por outros dois primeiros-sargentos, sendo que dos três indicados, Pereira era o que tinha menos tempo de Corporação.
Quando entrou no Gabinete do Comando, os dois sargentos já estavam na sala. O comandante foi até o mais velho de todos e perguntou:
— Você sabe fazer a folha de pagamento?
— Não, senhor! respondeu o sargento.
O comandante então virou-se para o outro e fez a mesma pergunta. Ao ouvir a mesma resposta, indagou em tom de irritação.
— Como vocês querem ser subtenentes sem saber fazer a folha de pagamento?
Apesar da desvantagem no critério de antiguidade, a competência para fazer a folha de pagamento, mais uma vez, foi fator decisivo para Pereira, que ascendeu à graduação de subtenente, em novembro de 1961.
Oficialato
Assim que a comitiva do principal nome da União Democrática Nacional despontou no meio da tarde de quinta-feira de 1962, os ternos escuros e bem alinhados avançaram pela Praça da Matriz, contrastando com os chapéus de palha e os vestidos singelos da população que aguardava, curiosa e respeitosa, a chegada do governador Leandro Maynard Maciel.
Após a recepção popular, o chefe do Executivo reuniu-se com as lideranças políticas locais para tratar de assuntos administrativos e demandas do município. Entre os presentes estava o deputado José Almeida Fontes.
Na ocasião, o parlamentar solicitou ao governador Leandro Maynard a promoção do subtenente Pereira ao posto de segundo-tenente, em reconhecimento aos bons serviços prestados à comunidade, especialmente no exercício da função de delegado no município de Riachão do Dantas.
“O chefe político pediu ao governador para me promover a segundo-tenente. Ainda lembro da rubrica do governador Leandro Maciel. Era assim: Ele fazia a letra l e duas letras m, e fazia outro l de cabeça para baixo”, explicou Pereira.
O pedido de promoção foi aceito, mas o governador foi alertado pelo chefe de gabinete, coronel Milton, sobre a impossibilidade de efetivar o ato. De acordo com a lei da época, os subtenentes do quadro administrativo só podiam ser promovidos após dez anos de serviços.
Em meio ao entrave, o coronel procurou o subtenente Pereira e perguntou:
— Pereira, vem cá, você é muito amigo aí desse chefe político, né?
— Não, eu faço o meu trabalho, ele gosta de mim, nunca pedi nada a ele, respondeu.
— Engraçado, ele pediu para lhe promover
— Eu vou ser promovido, ou não? questionou Pereira.
— Não vai, porque a lei diz que só pode ser promovido com dez anos. Agora, eu vou lhe propor um negócio. Já que você é amigo do chefe político, peça a ele para mudar a lei de dez anos para cinco. E aí, você é promovido, e eu tenho mais dois para promover, propôs o coronel.
Pereira demonstrou incômodo com a proposta e pensou silenciosamente. “Eu não sou político”.
Passado algum tempo, o deputado confirmou que tinha solicitado a promoção de Pereira, mas o pedido havia esbarrado na legislação. Com muito “jogo de cintura”, o subtenente alertou o parlamentar:
“Já que o senhor falou sobre o assunto, eu vou falar o que o coronel sugeriu. Ele disse que se o senhor quiser mudar a lei, é fácil. É só o senhor ir na Assembleia Legislativa, onde o senhor tem amizade com todo mundo e pedir para mudar”.
E assim o deputado fez. Aprovou uma nova lei, que reduziu o tempo necessário para promoção de dez para cinco anos. Com a mudança, Pereira foi promovido a segundo-tenente, juntamente, com os dois indicados do coronel Milton.
Certo dia, o recém-promovido, tenente Pereira, estava na Rodoviária Velha aguardando o transporte que o levaria para o serviço, quando encontrou um dos colegas que havia sido promovido, graças à mudança na lei. Ao tentar cumprimentá-lo, Pereira foi surpreendido com uma resposta curiosa.
— Como você está? perguntou Pereira.
— Me respeite, rapaz! Eu agora sou subtenente, retrucou o colega.
— Mas não esqueça que você foi promovido as minhas custas, comentou Pereira, em tom de brincadeira.

Mesmo ocupando o oficialato, Pereira continuou disposto a aprender. No seu primeiro serviço como Oficial de Dia, militar designado para supervisionar o quartel por 24 horas, com a finalidade de manter a ordem, a disciplina e a segurança, o tenente precisou recorrer aos subordinados mais experientes.
— Eu estava de serviço, quando chegou à informação de que receberíamos um capitão em nossa unidade.
— Você sabe como apresentar a tropa? perguntou Pereira ao sargento adjunto.
— Não sei! respondeu.
Sem perder a sensatez que o fez chegar até o posto de oficial, Pereira reuniu o efetivo e procurou alguém experiente o bastante para orientá-lo adequadamente.
— Eu fui para lá, fui para cá, quando lembrei de um sargento velho, apelidado de “Pão de Açucar”, o mesmo nome de sua cidade natal.
— Pão de Açucar! Você que está velho nesse negócio, já se apresentou a um capitão? Como é que eu faço?
— É fácil! Capitão fulano de tal comunico que… E por aí vai, explicou o experiente sargento.
Embora integrasse o quadro de oficial administrativo, espaço em que os relatórios davam o ritmo das horas, o tenente Pereira sentia que sua vocação não cabia apenas entre mesas e arquivos. Foi assim que, movido mais pela vocação do que pela conveniência, decidiu submeter-se ao Curso de Oficial ordinário. Não era uma exigência da carreira, mas a vontade de ir além sempre ditou os passos do oficial, desde os tempos de praça. Infelizmente, a falta de alinhamento com outros envolvidos impediu que o tenente alcançasse o seu objetivo.
“Eu falei com o comandante e fiz a inscrição no curso de oficial ordinário. Tudo bem, tudo tranquilo. Eu estava feliz da vida. Lá para o meio do curso, o major Argolo passou a prova da matéria inquérito policial. Eu terminei a prova rapidamente. Sabia fazer aquilo. Era o que eu mais fazia no interior quando exerci a função de delegado. No momento que entreguei a prova, o major me deu uma bronca e disse que cortaria minha prova. Eu era aluno, mas já era tenente. Aí eu esquentei um pouquinho. Tem hora que a gente esquenta também! Pedi para que ele me respeitasse. Logo depois, subi no gabinete do comandante, o coronel Manuel Machado Santos, e contei a história. Ele me acalmou, mas mesmo assim eu disse a ele que já era oficial administrativo e não queria mais continuar no curso”.
O tenente Pereira permaneceu na ativa por 35 anos. Ao longo dessa trajetória enfrentou um ou outro percalço, mas jamais deixou de demonstrar o amor profundo que nutria pela Corporação. Ingressou nas fileiras como soldado e, com dedicação e perseverança, encerrou a carreira no posto de primeiro-tenente, em novembro de 1981, levando consigo a honra de uma vida inteiramente dedicada à Polícia Militar.

“Ingressei numa época difícil, em que os soldados tinham pouca instrução, no máximo, a quarta série. Para se ter uma ideia, alguns sargentos tinham que melar o dedo para receber o salário. Muitas cidades, se quer tinham quarteis. Lembro que soldados e cabos só podiam casar após dez anos de serviço efetivo. No caso dos sargentos, o tempo diminuía para cinco ano. Aspirantes não casavam. A atividade policial hoje é uma maravilha. Os soldados quando vão resolver um problema, eles sabem falar bem, esclarecem tudo direito. A polícia é digna de resolver os problemas das cidades, tranquilamente. Agora tem batalhão em todo lugar”, comemorou o tenente Pereira.
Apesar das adversidades que enfrentou ao longo da carreira, Pereira orgulha-se de contemplar a evolução da Polícia Militar, mais estruturada, mais preparada, mais próxima da sociedade. Ele viu a Instituição se modernizar em equipamentos, formação e mentalidade. E não foi mero espectador dessa transformação, foi parte ativa dela.
Cada posto que ocupou, cada missão cumprida, cada conselho oferecido aos mais jovens ajudou a construir a Corporação que hoje ele admira. Ao olhar para trás, Pereira não enxerga apenas o crescimento da Polícia Militar, reconhece também as próprias pegadas marcadas nesse caminho, como quem sabe que a história da Instituição também carrega um pouco da sua história pessoal.
Texto e reportagem: 2º sargento André Oliveira








